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Seleção brasileira, que prazer em revê-la! | Por Felipe Blanco

Pandemia, COVID-19, quarentena, isolamento, colapso na saúde e crise na economia. O fã de futebol precisa cavar bastante para encontrar entretenimento, em meio a tantos fatos trágicos nos meios de comunicação. Se o futuro da humanidade é incerto, o que podemos dizer sobre o do futebol? (Já me arrisquei em uma previsão, clique aqui para conferir).

Se o futuro é imponderável e o presente está terrivelmente tomado pelo caos, uma boa saída é reviver os bons momentos do passado. Essa foi a medida adotada pelos canais de esporte, que estão apostando nas reprises de partidas marcantes para preencher a programação.  Os canais Globosat possuem a vantagem de contar com os jogos da seleção brasileira, afinal, a nível mundial, qual seleção possui maior número de boas recordações do que a seleção canarinho? Quantidade de boas memórias pode ser relativo, entretanto continuamos sendo o único país pentacampeão do mundo, e este fato é inquestionável. O brasileiro, seja ele palmeirense, cruzeirense, vascaíno ou flamenguista, torce para a nossa seleção, correto? Deveria, mas não é o que dizem os números.

Uma pesquisa sobre torcidas no país, realizada pelo Datafolha, em 2019, mostra que apenas 2% da população (cerca de 4.1 milhões) diz torcer para a seleção brasileira. É a mesma porcentagem de torcedores do Atlético-MG, por exemplo, o 10º da lista. E o mais surpreendente é que 22% da população (45.9 milhões) afirma não torcer para nenhuma equipe. Este número é maior do que a porcentagem de torcedores do Flamengo, dono da maior torcida no Brasil.

Foto: Infoesporte – 2019 | Números = milhões

Com base nestes dados, quão receptivos estamos para reviver os jogos do Brasil? Durante a quarentena, os canais GLOBO e SPORTV, reprisaram todos os jogos do Brasil tricampeão na copa de 70 – eleita por muitos como a melhor seleção de todos os tempos -, jogos da habilidosíssima seleção de 1982, a conquista do penta em 2002, a final da copa das confederações – com show em cima da argentina – em 2005, e o sofrido tetra em 1994.

Foto: Twitter – SPORTV

As reprises mostram as partidas na íntegra, oferecendo ao torcedor muito mais do que melhores momentos em câmera lenta. Há, de novo, a possibilidade de perceber o que eram e o que representaram realmente aqueles jogadores, como se portavam e o que fizeram para vencer, tudo nos mínimos detalhes. É possível viver aquelas partidas. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) utilizou as reprises para interagir com a nação em suas redes sociais. Publicou chamadas para os jogos, entrevistas, escalação, gols e fim de partida, quase como se fosse um jogo da equipe atual ao vivo. Assim como fizeram os clubes, a comunicação e o marketing brazuca também encontraram caminhos para não se “distanciar” do seu público neste momento. As aspas no distanciar são para relembrar as duras críticas que a CBF sofre por mandar seus jogos longe da torcida, em locais como os Emirados Árabes, os Estados Unidos, entre outros.

Foto: Divulgação CBF – Facebook

Você que está lendo este texto agora, assistiu alguma dessas partidas, ao vivo, nos respectivos anos em que elas aconteceram? Teve vontade de ver de novo? E se não viu, sentiu-se atraído para conhecer cada detalhe das conquistas e de como atuavam os craques que foram campeões representando o Brasil? Realizei uma breve enquete nas redes sociais questionando sobre o que sentiram, e se as reprises contribuíram para melhorar a relação com a seleção. Colhi opiniões diversas: dos nostálgicos e dos que tiveram a primeira oportunidade de assistir, até os que viram com tristeza, pois acreditam que a seleção se tornou apenas uma vitrine para vender atletas e nunca mais voltará a jogar com amor, vontade e técnica apresentados anteriormente.

Particularmente, como fã de futebol, assisti a todos os jogos da seleção que pude, principalmente os que não tivera a oportunidade de acompanhar, como por exemplo a campanha do tri. O efeito em mim foi altamente positivo, ouvir falar do talento de Rivelino, Gerson, Tostão, Jairzinho, Carlos Alberto, Pelé… é muito diferente do que vê-los jogar os 90 minutos. Tentei viver aquele momento como se estivesse em 1970, vibrando, torcendo e ficando boquiaberto com cada lance espetacular que meus olhos fitavam de forma inédita. Senti-me grato por existir a transmissão e me proporcionar a chance de rever, 50 anos depois, toda aquela exuberância e talento.

Nem todos carregam essa disposição de querer assistir um jogo que já aconteceu, cujo resultado é conhecido, em qualidade audiovisual bastante inferior e replays precários. Um jovem de 12 anos, por exemplo, nascido na era de smartphones, televisões full hd, que nunca viu o Brasil vencer uma copa, dificilmente se sentiria atraído por uma transmissão de 1970. Mas o resgate do que somos, como seleção, precisa ser mantido. É como estudar história no colégio, mas com muito mais emoção! Não é porque vivemos um presente menos glorioso que devemos renegar nossa grandeza do passado. Quantos times crescem em número de torcedores nas piores fases de sua história? O torcer está além da vitória.

As reprises são desprezadas por muitos, mas não deveriam. O passado já aconteceu, todavia é preciso aprender com ele e valorizá-lo. É ele que nos transformou para sermos o que somos hoje. As reprises deveriam ocorrer com mais frequência, ou estar à disposição on demand, oferecendo a um pai a chance de mostrar jogos do Zico para seus filhos, por exemplo. Poderia haver mais argumentos contra aquela criança que diz “meu Barça”, ao mostrar em detalhes o que Raí fez diante do clube catalão, atuando pelo São Paulo FC em 1992. O futebol vive de história, marcas, feitos, conquistas, craques, paixão e lealdade. Ele tem o poder de exaltar nossa memória afetiva e nos trazer à tona momentos inesquecíveis. É na memória que a magia do esporte está guardada e é lapidada a cada vez que contamos a partir da nossa percepção.

Foto: Divulgação São Paulo FC – São Paulo x Barcelona em 1992. Partida reprisada pela TV Bandeirantes.

Todo fã de futebol tem um momento marcante que lembra detalhadamente, uma vitória, um título, um gol ou até mesmo uma simples jogada que incita um sorriso espontâneo. “Quem vive de passado é museu”. A velha e falha máxima usada para tentar derrubar um argumento sobre uma conquista passada. Afinal, sem memória, o que seríamos? Se não lembrássemos o que aconteceu ontem, como viveríamos o hoje? A seleção brasileira foi gloriosa, deslumbrante e isso jamais será apagado, não há 7 a 1 que altere fatos do passado, apenas somam-se capítulos na história. Que o futuro, pós-pandemia, nos traga lembranças tão marcantes como as que o Brasil já nos oferecera em tantos outros momentos.

Formado em Administração pública pela Unesp e pós graduado em Gestão e marketing esportivo pela Trevisan. Sou gerente de marketing e comunicação na Ferroviária Futebol S/A. Escrevo para o Brand Bola sobre marketing social, de relacionamento e conteúdo.
Instagram: @felipeablanco

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