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Eliminatórias da copa: Onde assistir a seleção? | Por Felipe Blanco

A seleção brasileira – maior campeã de copas do mundo – está passando por um problema devido a alterações nas regras de venda de transmissão dos seus jogos. As eliminatórias sulamericanas para a copa de 2022 começaram e as negociações para a transmissão estão causando alvoroço, isto porque a rede Globo, que normalmente adquire os direitos de transmissão, não será mais o canal exclusivo de transmissão das partidas da seleção. Os torcedores que acompanham o Brasil foram surpreendidos ao ver os comandados de Tite no canal TV Brasil, no último duelo entre Peru e Brasil, no dia 13 de outubro.

Devido aos escândalos expostos pelo Fifagate, a Conmebol decidiu alterar a forma de negociação, entregando aos mandantes o direito sobre a transmissão, algo bem similar a “lei do mandante” ou como ficou conhecida: “MP do Flamengo”. Os jogos sediados no Brasil, com direitos da CBF, foram vendidos para a rede Globo, porém, os jogos fora do país, cujos direitos não pertencem à CBF, não foram adquiridos pela emissora carioca (até então). Este fato fez com que o jogo entre Peru e Brasil ficasse sem transmissão para o Brasil na TV aberta, uma vez que apenas o streaming EI Plus conseguiu o direito. Até o dia da partida, seria o EI Plus, o único a transmitir a partida com narração em português, mas há poucas horas do confronto, uma manobra política do governo brasileiro, aliado à CBF, fez com que a partida fosse transmitida pelo canal público TV Brasil e também no site da confederação brasileira.

A CBF, que teoricamente é vendedora de transmissões dos jogos, se mobilizou e comprou os direitos da partida e conseguiu que o torcedor pudesse acompanhar a partida sem precisar adquirir o streaming da EI Plus ou acompanhar por transmissões, com custo, do Peru. O acordo foi selado desde que a transmissão tivesse acesso restrito apenas para o Brasil, mas a regra foi quebrada e a transmissão esteve aberta para outras regiões, bastando apenas entrar no site da entidade. Essa questão causou conflitos com os que compraram os direitos e estavam cobrando pela partida. De acordo com o portal Máquina do esporte, a CBF, além de arcar com o valor da partida e repassar a transmissão para TV Brasil, poderá ter de pagar uma multa pelo vazamento do jogo, ou até arcar com um processo judicial por perdas e danos dos detentores dos direitos de transmissão.

Exposto o imbróglio, a transmissão foi um sucesso, mas só para o canal Brasil. Segundo o IBOPE, a partida de estreia das eliminatórias, transmitida na rede Globo, entre Brasil e Bolívia, atingiu cerca de 27 pontos de audiência, enquanto a partida no canal Brasil não atingiu nem 3 pontos em praças como São Paulo e Rio de Janeiro, e ainda por cima, foi superada pela emissora em todos os estados no horário da partida, que apenas seguiu com sua programação normal. Outra barreira criada por essa manobra foi o anúncio da transmissão, que fora realizado pouco tempo antes do jogo, decisão que pode ter colaborado para que muitos torcedores não tivessem a informação a tempo de assistir a partida ao vivo.

Reduzir o alcance das transmissões das partidas é descer um degrau no sentido contrário das ambições que deveria ter a CBF. Com menor audiência, os patrocinadores tem sua exposição drasticamente reduzida. Fora a redução de exposição de quem investe em cotas de publicidade, infelizmente, a admiração pela seleção está diminuindo ao longo dos anos, como demonstram algumas pesquisas. Inúmeros fatores explicam a queda na popularidade e prejuízos para a marca “seleção brasileira”, a começar pelo descrédito da CBF, desmoralizada após a mega investigação do FBI, com a Fifagate, que implicou grandes nomes da instituição como José Maria Marin, Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero. Para exemplificar com números, somente o caso de Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF) que é acusado e ainda responde na justiça por – ao lado do ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell – desviar verbas de transmissões das partidas da seleção brasileira causando um prejuízo de mais de 55 milhões à instituição.

Outro fator que contribui negativamente para a seleção é a elitização dos ingressos e o distanciamento da torcida brasileira, que mesmo antes da pandemia, sofria ao se deparar com ingressos caros e a seleção disputando a maioria dos amistosos em terras inacessíveis para a maior parte do seu povo, como os Emirados Árabes, por exemplo. Por fim, a camisa verde e amarela, um dos melhores produtos de um time de futebol, tornou-se instrumento político por apoiadores da extrema direita, fato que, devido à grande polarização da última eleição presidencial, gerou repulsa em boa parte dos torcedores não adeptos desta ideologia.

Para comprovar a gravidade e o impacto dos fatos apresentados, podemos analisar algumas pesquisas sobre a seleção:

A pesquisa da Orbis revela que a maior parte dos que acompanham a seleção possuem baixa renda, mostrando que a CBF, com algumas medidas citadas acima, distancia exatamente o seu público mais fiel. Além disso, outra pesquisa, dessa vez do Datafolha – 2019, revela que o desinteresse pela seleção brasileira foi de 31% para 41% em 10 anos.

A questão da transmissão em emissora X ou Y, não é o cerne do problema, mas a forma com que os acordos foram constituídos e principalmente a motivação política de “passar a perna” em uma emissora, mesmo que isso fosse prejudicial à seleção. O presidente evidencia o seu desprezo pela emissora sempre que pode, e esta manobra, aparentemente, deixa no ar a ideia de que o foco era tirar este produto da Globo.

Mediante a todos os escândalos e corrupção comprovadas dentro da CBF, a confederação luta para reconstruir sua imagem, montar uma equipe vencedora, recuperar o respeito dos seus adversários, ser simpática com seu público e se tornar mais transparente e valiosa. Algumas mudanças já começaram, como o rebranding do seu escudo, a criação do mascote “Canarinho pistola” e o investimento na capacitação dos envolvidos no futebol, com a CBF academy.

Contudo, a missão se torna mais difícil com o seu principal produto sendo retirado do grande público – importa frisar que essa manobra resulta em perder a força de um grande veículo popular e com alcance em todo o país. Em um período de pandemia e com estádios vazios, a seleção precisa ser transmitida para o maior número de espectadores, visto que isso atrai mais patrocínio e fortalece a marca. É fundamental, portanto, facilitar o acesso aos jogos. O futebol vale o que vale porque bilhões de pessoas consomem a modalidade, e não somente porque um time vence e conquista taças. Sem o apoio e interesse da torcida, por diversos motivos citados, como a corrupção, falta de transparência, atitudes políticas em detrimento da finalidade real da instituição, distanciamento físico do público e menor alcance nas transmissões, a seleção perde muito em vários sentidos.

Acredito que com muito trabalho, responsabilidade, transparência e foco, é possível voltarmos a ser o que já fomos: o país do futebol, mas precisamos pensar primeiro em medidas para o bem da seleção e do futebol brasileiro, a política não deve dominar as ações da CBF como fora anteriormente, é preciso mudar a postura. Veremos qual será o destino das próximas transmissões da seleção pentacampeã fora de casa. Lembrando que ser o país do futebol não nos impede de sermos um país desenvolvido, com educação, saúde, segurança e saneamento básico.

Formado em Administração pública pela Unesp e pós graduado em Gestão e marketing esportivo pela Trevisan. Sou gerente de marketing e comunicação na Ferroviária Futebol S/A. Escrevo para o Brand Bola sobre marketing social, de relacionamento e conteúdo.
Instagram: @felipeablanco

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