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A polêmica terceira camisa | Por Felipe Blanco

O que você acha da utilização de um terceiro uniforme pelo seu clube do coração? Necessário, desnecessário ou indiferente? É uma possibilidade para inovar e abusar da criatividade? Faz com que o clube perca a identidade? Estas questões circulam por aí há algum tempo.

Para começar a falar sobre as atuais terceiras camisas que estão gerando polêmicas e uma chuva de memes, quero relembrar brevemente a origem dos uniformes e o porquê do seu uso. As primeiras partidas a conter atletas uniformizados aconteceu por volta de 1870, no berço do esporte, a Inglaterra. É importante salientar que o primeiro clube inglês foi criado 23 anos antes: Sheffield FC (1857).

A padronização de vestimenta ocorreu, inicialmente, por duas razões fundamentais: o difícil reconhecimento dos atletas pelos seus próprios companheiros – a partir da alteração da regra em que o passe poderia ser dado adiante e não somente para trás – e posteriormente para facilitar a distinção dos jogadores pelo público e imprensa que começara a acompanhar a modalidade investindo seu dinheiro em ingressos.

A partir dessa nova regra as equipes precisaram se adaptar e escolher cores para seus uniformes, e estas vieram com motivos específicos, seja, por exemplo, o preço mais baixo do tecido branco em alternativa aos coloridos de maior custo – que era pago pelos atletas – e a escolha de cores que refletiam valores das equipes, como por exemplo os escoceses: Rangers e Celtic. O Rangers escolheu azul, branco e vermelho por ser um time protestante, e o Celtic, verde e branco, representando os imigrantes irlandeses e seu apreço pela igreja católica. (Saiba mais sobre a história dos uniformes no futebol clicando aqui)

Com o passar dos anos a modalidade se profissionalizou, e os uniformes foram dotados de mais valores e regras, representando a marca do clube com cada vez mais responsabilidade. Os uniformes e suas cores unem os apoiadores de mesmos times, permitindo que demonstrem seu amor e sejam identificados a distância, seja com uma camisa, boné, cachecol, pintados ou balançando bandeiras. Estes são ritos primordiais para a união e sentimento de pertencimento entre os fãs de futebol. Olhar para pessoas que vestem as mesmas cores e uniformes é como olhar para um amigo, existe algo em comum, uma paixão compartilhada e o sentimento de empatia se apresenta com maior facilidade.

Contudo, as terceiras camisas chegam com uma nova proposta, inovação no design e mudança em suas cores, causando terror dentre os mais apegados as tradições e uniformes clássicos. Atualmente é muito normal encontrar torcedores com camisas de cores que “nada” correspondem as do seu clube de coração. Flamengo de amarelo? Corinthians de laranja? Cruzeiro de verde? Se estivéssemos em meados de 1980 dizendo algo desse tipo seríamos diagnosticados como loucos.

Da esq. para dir.: Terceiras camisas do Cruzeiro-MG em 2011, Flamengo-RJ em 2017 e Corinthians-SP em 2015.

Atualmente (me refiro a um período pré-pandemia) as arquibancadas não contêm apenas torcedores com as cores originais do clube, elas foram inundadas pelas terceiras camisas coloridas e, também por isso, polêmicas.

As camisas dos clubes não são mais apenas roupas que os diferenciam dentro do gramado como eram em sua concepção. Elas tornaram-se o símbolo maior de todas as equipes, são associadas a conquistas e derrotas. Carregam o valor das marcas esportivas que fornecem os materiais, estampam os patrocinadores que desembolsam cifras milionárias para estarem atreladas ao esporte e ao que o jogo representa, além de oferecer aos clubes a oportunidade de arrecadar altos valores com vendas ao redor do planeta.

Com os novos valores oriundos da sociedade de mercado globalizada, a tradição de “uniformes padrão” teve de abrir passagem e assistir o desfile das camisas modernas e exóticas. Quase todos os clubes, pelo menos uma vez, já criaram um terceiro uniforme que não continha, predominantemente, as suas cores tradicionais. Veja esse exemplo das camisas I do Manchester United de 1970 a 2020.

Eles são conhecidos como os “Red Devils”, mas os diabos vermelhos não foram tão vermelhos assim nos terceiros uniformes. Eles ousaram bastante nos últimos anos com sua parceira Adidas, veja:

Como dito acima, os ingleses de Manchester e a Adidas não são os únicos a inovar e gerar polêmica, diversos clubes tem ousado bastante ao criar modelos surpreendentes nos últimos anos. Este assunto tem gerado muito debate e não há uma resposta única para a questão. Devemos parar ou devemos seguir? É feio ou é bonito? Acaba com a identidade ou cria novos mercados?

Da esq. para dir.: Terceiros uniformes 2021 de Barcelona-ESP, Juventus-ITA, Manchester City-ING, Arsenal-ING e Real Madrid-ESP.

O tema dá muito pano para a manga…trocadilho oportuno, não? Creio que essa análise dependa de muitos fatores. Qual é o objetivo desta criação? Atender o público mais antigo e conservador? Atender o público jovem e criar novos torcedores? Vender o maior número de exemplares? Ter boa aceitação na mídia? Ser o mais inovador? Ter a melhor história para contar? Melhor tecnologia de tecido? Gerar mais polêmica? Criar engajamento? Imagino que uma junção de todos os fatores acima seria um resultado interessante e desejado, mas é praticamente impossível.

Não ouso afirmar que o terceiro uniforme é certo ou errado, inovação ou loucura, cada clube e marca esportiva decidem seus objetivos quando querem lançar um novo uniforme, e é por aí que podemos analisar o quanto “acertaram ou erraram”.

Nenhuma marca esportiva lança um uniforme sem consultar o clube, é um trabalho em conjunto, então não adianta o torcedor xingar a X, Y ou Z por não ter gostado do seu novo manto.

Aliás, muitos clubes tem criado suas marcas próprias, o que oferece mais liberdade de criação, porém, aumenta a responsabilidade no momento de definir como e por qual motivo este tema foi escolhido para a próxima camisa.

O que é um bom uniforme? Acredito que um bom uniforme precisa, antes de ser “bonito” – aspas pois a beleza é relativa – ser funcional, ou seja, atender os requisitos fundamentais para o qual ele é produzido: oferecer a melhor condição e sensação para que o atleta atue no campo de jogo e consiga expor, com boa visibilidade, os seus patrocinadores.

Mas e os uniformes vendidos para a torcida? Estes precisam atender, na maior escala possível, os fãs daquela equipe, tanto no design quanto na qualidade do material, e é aí que os terceiros uniformes ganham destaque.

As terceiras camisas, ao meu ver, são a tentativa de expandir o uso de camisas de jogo para outros ambientes, como confraternizações, passeios e etc.

Existem atualmente outras linhas casuais de clubes que podem fazer essa função, mas a camisa de jogo carrega consigo valores que nenhuma camisa casual traz consigo, e a terceira camisa consegue atuar nesta lacuna entre o uniforme “quadrado” e a linha casual. O foco são pessoas jovens, em sua maioria, pois elas usam cores que são tendência, designs e estilos que fogem do padrão, ousadia ao se vestir é uma marca da juventude.

E se você odeia com todas as suas forças as terceiras camisas, encerro com um trecho da canção “Como nossos pais” composta por Belchior em 1976: “É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”.

Formado em Administração pública pela Unesp e pós graduado em Gestão e marketing esportivo pela Trevisan. Sou gerente de marketing e comunicação na Ferroviária Futebol S/A. Escrevo para o Brand Bola sobre marketing social, de relacionamento e conteúdo.
Instagram: @felipeablanco

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