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Como as mudanças nos direitos de transmissão de partidas podem ser exploradas pelos clubes | Por André Romero

As características da sociedade estão mudando constantemente e cada vez mais o consumo de conteúdo tende a ser voltado para o digital. Com a vinda da internet, as mídias tradicionais perderam muita força e o ambiente online atualmente se tornou uma eficaz maneira de se conectar com o seu público.

No meio esportivo, já podemos observar algumas consequências dessa digitalização do consumo de conteúdo. As mídias sociais, hoje em dia, são utilizadas com uma frequência diária por grandes clubes de futebol ao redor do mundo, e alguns canais de televisão, além de utilizarem a mídia mais tradicional, também transmitem alguns jogos através de plataformas digitais tais como o Facebook e o Youtube. Um exemplo disso foi o canal Esporte Interativo, que além de transmitir jogos da Champions League nas suas emissoras de televisão, também os disponibilizava em seu Facebook.

No mês passado, mais especificamente no dia 18/06, mais um passo foi dado para o ambiente online. O presidente Jair Messias Bolsonaro assinou uma MP 984/20. Nessa Medida Provisória foram alteradas as regras de transmissão no Brasil, e as suas definições foram vigoradas de forma imediata.

O texto da MP diz que passa a pertencer apenas ao clube mandante o direito de arena e transmissão dos jogos sob seu mando. Anteriormente, a lei dizia que o direito de arena pertencia às duas entidades esportivas participantes do evento. Isso implica que os clubes mandantes dos jogos podem transmitir as partidas em suas plataformas, o que causa diversas mudanças no cenário.

Para mostrar quais foram essas mudanças que ocorreram de forma mais clara podemos usar como exemplo o jogo da última quarta feira, dia 1/07, do Campeonato Carioca, entre Flamengo e Boavista e fazer uma análise da transmissão, mostrando seus respectivos resultados.

Antes mesmo da transmissão acontecer, ocorreram alguns atritos entre o Flamengo e a Globo. A emissora entende que a medida não tem validade para contratos já existentes. No caso do Carioca, ela acertou com todos os outros 15 clubes, exceto o Flamengo, até 2024. Desta forma, segundo a Globo, ninguém pode passar qualquer jogo da competição sem a sua autorização, pois do seu ponto de vista ela é a detentora dos direitos de transmissão do Estadual até 2024.

A emissora tentou fazer com que o Flamengo não pudesse transmitir a partida, através de um recurso judicial chamado Agravo de Instrumento. Isso gerou certa tensão, pois com esse conflito a torcida não tinha uma garantia de que seria possível acompanhar a partida. Apesar disso, o Flamengo prevaleceu judicialmente e teve o direito de transmissão confirmado.

Faltando 1 minuto para o início da partida, já havia mais de 1 milhão de rubro negros acompanhando o time pelo Youtube, e sua transmissão foi responsável pela quebra de diversos recordes. A transmissão foi a livestream esportiva com maior número de espectadores simultâneos ao ultrapassar a marca de 2,2 milhões. O recorde anterior era de 2,1 milhões na partida entre Grêmio e Internacional, pela Libertadores de 2010.

A live também se tornou a com maior número de likes do Brasil, sendo 778 mil, ultrapassando o recorde estabelecido pela cantora Marília Mendonça de 772 mil. Além do Youtube, o clube também transmitiu pelo Twitter, Facebook e MyCujoo (plataforma voltada os para torcedores fora do Brasil).

Um fato interessante é que uma transmissão via streaming tem diversas características diferentes da que ocorre na televisão. A narração não ocorreu de forma imparcial como geralmente é no confronto entre 2 times brasileiros. Ela se desenvolveu de uma forma em que o discurso era totalmente voltado para o mandante da partida, ou seja o Flamengo. Esse fato entretém mais a torcida do clube, que é o principal público-alvo.

Porém, caso a transmissão dos jogos do Flamengo como mandante ocorra somente pelos seus canais, a torcida do time adversário é pouco abrangida. Por exemplo, seria bastante desconfortável para um torcedor do Vasco ter como única opção de acompanhar a partida do seu time contra o rival uma transmissão cuja narração seja tendenciosa para o Flamengo. Para a torcida flamenguista, uma narração nesse estilo pode ser até mais eficaz do que uma imparcial, mas é necessário haver uma maior disponibilidade de possibilidades para que todos os torcedores possam ser satisfeitos.

Como o clube tem mais controle em uma transmissão própria, a liberdade na hora de escolher como os seus patrocinadores serão ativados e expostos é maior, o que aumenta o leque de possibilidades na hora de planejar uma ação publicitária. Durante grande parte do jogo, foi disponibilizado um QR Code na tela, onde o torcedor que o acessava, ganhava 15% de desconto em cervejas da marca Brahma, ao inserir um código que também foi disponibilizado. Outra ação presente teve um intuito mais solidário. A cada gol do Flamengo, o clube doaria 250 unidades de álcool gel para hospitais do Rio de Janeiro, no intuito de ajudar no combate contra o coronavírus.

A torcida, além de poder se expressar através do chat que o Youtube fornece para as transmissões, também poderia doar qualquer valor de sua escolha, e teve até torcedor que financiou R$500,00 em uma única doação! A receita também foi fortalecida na venda de ingressos simbólicos para a partida.

Bandeiras e faixas de torcidas organizadas foram colocadas nas arquibancadas no Maracanã dando um clima mais “rubro-negro” à partida. Um fato diferente ocorreu em relação à exposição dos patrocinadores na camisa. Pela primeira vez, a logo da FlaTV foi exposta na manga das camisas do Flamengo, o que reforçou ainda mais a WebTV do clube.

Ao todo, foram mais de 14 milhões de visualizações durante todo o período de transmissão, e tendo em vista que o jogo em si não era tão importante, já que não foi um confronto contra um grande rival e nem era da fase final do campeonato, os resultados são impressionantes. Ao todo foram 52 profissionais mobilizados para a transmissão, a um custo total de R$50 mil reais.

Apesar do grande sucesso da transmissão gratuita, no próximo jogo que ocorrerá contra o Volta Redonda, pela semifinal da Taça Rio no domingo, dia 5/07, a transmissão será de graça somente para os sócios torcedores, enquanto o resto da torcida terá que pagar R$10,00 para acessar a partida. Tal fato gerou muita revolta entre a torcida rubro negra, o que fez com que a FlaTV perdesse mais de 20 mil inscritos. Pichações no muro do clube também puderam ser observadas na madrugada onde estavam presentes mensagens como “O Flamengo é do povo” e “Fora Landim ganancioso”.

Ao mesmo tempo em que o sócio torcedor merece benefícios aos quais a torcida comum não tem acesso, cobrar por uma transmissão em momento como esse pode ser considerado por muitos um ato um tanto quanto insensível por parte da diretoria. Devido a atritos do clube com a Globo, o torcedor já não conseguia acompanhar os jogos do Flamengo, e, com a vinda da pandemia, a torcida ficou mais tempo ainda sem poder ver seu time. O coronavírus fragilizou a situação financeira de grande parte da população, e a diretoria do Flamengo parece não ter enxergado esse ponto na tomada de decisão em torno do valor cobrado.

Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

Cursando Publicidade e Propaganda na PUC-RIO. Apaixonado por futebol desde cedo, escrevo para o Brand Bola sobre sócio-torcedor e relação torcida-clube. Instagram: @andreromero98

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