VAR, o vilão do bem | Por Felipe Blanco

O VAR (sigla em inglês de video assistant referee ou árbitro assistente de vídeo) chegou para tornar o futebol mais justo. O recurso auxilia a arbitragem que atua dentro de campo, mediante a análise de outro grupo de árbitros, munidos de diversas câmeras, diferentes ângulos, proporcionando a revisão minuciosa de lances que geram dúvida, logo após ocorrerem. O próprio árbitro da partida revê a jogada através de um monitor instalado no gramado.

Os fãs de futebol estão celebrando a implementação do VAR, pois com sua assistência gols impedidos, pênaltis inexistentes, simulações e outros tipos de irregularidades não prejudicarão equipes e o esporte mais popular do Brasil não sofrerá com interferência de erro humano e ludibriação, correto? É… mais ou menos.

O VAR foi introduzido na Copa do Mundo de 2018 e, de lá para cá, carrega amantes e inimigos a cada partida em que é acionado. Em 2019, o recurso decidiu jogos importantíssimos e foi motivo de debates e polêmicas pelo mundo. No Brasil, o árbitro de vídeo foi introduzido nas fases finais dos estaduais, gerando reações agressivas que, infelizmente, precisam ser ressaltadas. Vamos rememorar os lamentáveis episódios recentes: na semifinal do Paulistão, Felipe Scolari ameaçou tirar o time de campo após o cancelamento de um pênalti a favor do Palmeiras, diante do São Paulo.

No campeonato gaúcho, D’Alessandro quase agrediu o quarto árbitro por não marcar uma penalidade (após uso do VAR) e foi expulso. Além disso, o técnico do mesmo Internacional, Odair Hellmann, teve de ser escoltado pela polícia até a saída do gramado após se recusar a sair de campo por ser expulso, devido a reclamações exacerbadas.

E para terminar de citar algumas das reações descabidas por aqui, durante o clássico entre Fluminense e Flamengo, Fernando Diniz e Abel Braga, técnicos dos respectivos clubes cariocas, incomodaram tanto o árbitro que revia o lance no monitor, que a federação teve de alterar o monitor do VAR de local. O título do campeonato mineiro também teve participação decisiva do árbitro de vídeo. O pênalti marcado pelo VAR, anotado pelo Fred, ocasionando o empate e o título do Cruzeiro, gerou polêmica.

O dirigente do Atlético, Rui Costa reclamou acerca da interferência exagerada e de um lance não checado, onde o Galo teria um suposto pênalti a favor: “Vou preferir achar que foi equívoco, embora os equívocos sejam sempre contra o Atlético. Do jeito que nós vimos hoje a aplicação do VAR, nós temos uma arbitragem que foi terceirizada. O jogo perdeu sua espontaneidade. O árbitro estava marcando cartão amarelo com o VAR […] será que o futebol brasileiro vai virar isso? Em que o árbitro vai se esconder no VAR. O árbitro tem que ser ele quem toma a decisão” 

Na contramão dos “cães que ladram” a qualquer movimentação que possa interferir negativamente sobre a sua expectativa, Pep Guardiola, técnico do Manchester City – ING, que perdeu a classificação à semifinal do maior torneio de clubes do mundo, a Champions League, ao ter o gol da classificação da sua equipe anulado, aos 48 minutos da segunda etapa, defendeu o uso do recurso. “Dói o que aconteceu. Foi difícil. Mas o árbitro pode cometer um erro. O VAR pode levar mais tempo para ver as imagens e os diferentes ângulos […] é por isso que eu apoio bastante: porque é justo”.

O técnico espanhol relembrou, também, quando sua equipe foi beneficiada por um erro de arbitragem: “Nós passamos para a semifinal da Copa da Inglaterra contra o Swansea com um gol irregular do Agüero. Não foi justo com eles. A partida foi boa, empatamos por 2 a 2, mas passamos para enfrentar o Brighton por causa de um erro. Sei que outros treinadores eram contra, mas agora talvez sejam a favor”.

Como bem tratou Bruno Lobo em seu texto para o portal globoesporte.com, essa atitude escancara o abismo cultural entre Brasil e Inglaterra. Entretanto, o próprio técnico do Tottenham, favorecido com o recurso, Pochettino, já havia reclamado sobre o recurso, dizendo que ninguém é feliz com o VAR. Cumpre ressaltar que, mesmo descontentes, os técnicos ingleses não pressionaram os árbitros de forma abusiva.

Toda mudança gera resistência. O futebol foi se transformando ao longo do tempo – no início não havia números nas camisas, não existiam substituições, cartões, lei da vantagem e nem decisões por pênaltis. Para matar a curiosidade de como era esse esporte em seus primórdios, confira um pouco da sua evolução nessa matéria do Trivela:

Ano a ano, as principais mudanças feitas nas regras do futebol

Sendo assim, podemos concluir que a falta de educação e racionalidade no futebol brasileiro é um problema para a evolução do esporte no país? Sim e não. Muitos atletas e profissionais que atuam na modalidade pedem melhores condições de trabalho, justiça nas decisões, calendários que priorizem mais a recuperação dos atletas, entre outras reivindicações.

Contudo, assim que uma medida para reduzir as injustiças é posta em prática, a cultura de vencer a qualquer custo dá as caras e mostra os dentes. Árbitros são encurralados e federações questionadas, mesmo quando a imagem mostra que o VAR acertou. Convenhamos, olhando o replay inúmeras vezes é difícil de errar. Mas com grande pressão de todas as partes, a irracional mania de achar que as coisas se ganham no grito e de que vence quem chora mais, cenas lamentáveis continuam se proliferando no Brasil.

As regras básicas e primordiais do esporte são a justiça e a igualdade. Os competidores devem, em tese, participar de disputas igualitárias, ao menos em termos gerais dentro do campo de jogo. Aqui excluo condições financeiras, repasses de direito de imagem e outros fatores que interferem na montagem das equipes. Faço referência apenas às condições para disputar as partidas que devem ser garantidas pelas regras e federações organizadoras. A respeito do VAR, a crítica dos mais sensatos é direcionada apenas para o longo tempo de espera durante as tomadas de decisão – não são questionadas as decisões e colaboração para melhoria da modalidade como um todo.

Estamos na direção correta, mas a adaptação dos praticantes e a aprimoração do recurso requer tempo. Compete aos envolvidos ter paciência e saber como explorar da melhor maneira o novo ator do espetáculo. Certa vez, ouvi em uma aula sobre marketing esportivo que o futebol seria melhor comercialmente se tivesse 4 tempos, assim como o basquete. Mas que absurdo! Pensei de bate-pronto. Ao longo da explicação, sob a ótica de futebol como um negócio, concordei. As transmissões teriam mais tempo para anúncios, logo, muito mais acordos comerciais, repasse aos clubes, ações com sócios, atrações, vendas nos restaurantes do estádio e outra infinidade de possibilidades para entretenimento de todos os presentes.

Por que não explorar o tempo de espera do VAR e tornar isso rentável? Técnicos podem aproveitar para dar instruções, aplicar jogadas ensaiadas assim que a bola voltar a rolar, atletas podem recuperar o fôlego, emissoras podem expor patrocinadores exclusivos para esses períodos, por exemplo “Não gosta de esperar, adquira o Sem Parar” ou “Para momentos como esse, tenha sempre um Maracugina a disposição”.

Criar enquetes na transmissão para o público votar qual será o desfecho do lance com oferecimento de um patrocinador, clubes podem criar posts patrocinados para esse momento, enfim, a gama de possibilidades é grande. O tempo de bola rolando das partidas já não é o ideal devido a simulações de lesões, enrolação para cobrança de tiros de meta entre outras atitudes condenáveis que atrapalham o andamento das partidas. Seria uma hipocrisia apontar o VAR como o ladrão das emoções do futebol.

Foto: FIFA

Gestor de marketing e comunicação no clube Ferroviária S/A de São Paulo.
Administrador público graduado pela UNESP. Especializado em gestão e marketing esportivo, colunista do portal Brand Bola e fã incondicional de esportes, criação e natureza.

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