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Uma vez colônia, sempre colônia? | por Moisés de Oliveira

Um dia desses, numa conversa informal com um amigo num boteco, e tendo somente o garçom e uma garrafa de cerveja aqui, outra acolá em cima da mesa como testemunhas e mediadoras –, estávamos debatendo sobre a melancolia que se abateu sobre a forma de disputa do Campeonato Brasileiro.

Eu nunca fui um entusiasta dos pontos corridos. Muito pelo contrário, para mim este modelo de competição em nada tem haver com nossos costumes e peculiaridades, é morna e quase nunca vende emoção.

Mas devo admitir que seu modelo de disputa premia a equipe mais regular, porém não o vejo como uma verdade absoluta. Pois na fórmula de mata-mata não existe a possibilidade de a pior equipe ser campeã, assim como em pontos corridos.

Mesmo que uma equipe ganhe uma competição utilizando-se de retranca, esperando as penalidades, ela será a melhor, pois foi feliz em sua estratégia de jogo – não sendo batida por seus adversários. Logo, sob minha ótica, compreende-se que a melhor estratégia de jogo foi premiada. Agora se foi mais vistosa ou não, é outra discussão.

Um exemplo vivo e recente desse raciocínio é o Athletico-PR. O clube conquistou a Copa do Brasil e, no começo da competição, nem de perto era apontado pelos especialistas como campeão. E de veras não tem o melhor elenco do Brasil.

O futebol mudou, caros leitores. Os esquemas táticos nunca foram tão primordiais para uma equipe de futebol, assim como a força física e a preparação feita no dia a dia dos treinos. A técnica que outrora era fator indispensável para o atleta profissional de futebol, foi posta de lado. Hoje não é possível mais ganhar um torneio somente com um time técnico.

O jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues certa vez, em um de seus contos, fez uma citação sobre a autoestima dos brasileiros, e claro, devo admitir que em partes seja verdade, embora não me sinta nada orgulhoso disso. Mas compreendo-a como verdade. Ele comenta sobre uma síndrome que nos acomete, a “Síndrome de Vira-Lata”. É preciso que façamos justiça a nós mesmos: a mentalidade brasileira nem sempre é errada, torpe, ou vil. Não somos Pentacampeões por obra do acaso.

Mas, segundo ele, o brasileiro tem uma capacidade de se depreciar frente a outros povos do mundo. E no contexto que abordamos neste texto, o que nos traz isto em mente, é a importação da fórmula de disputa de nosso Campeonato Nacional.

Importamos muita coisa da Europa quando o assunto é futebol. Tudo bem. Concordo que por lá as coisas funcionam e são bem mais atraentes. Mas, antes de tudo, precisamos identificar nossas diferenças, e levá-las em consideração. E a lista é grande, parte da cultura passa pela renda per capita, e termina no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Somos diferentes, pensamos diferentes. Logo, nem tudo que se enquadra no “Velho Mundo” pode ser relativizado por aqui. Vide final única da Copa Libertadores da América (Assunto pra outro dia).

O modelo de pontos corridos foi implementado a partir de 2003 e, de lá pra cá, todo ano é o mesmo discurso de que o calendário está saturado. Jogadores, técnicos, dirigentes num só coro. Embora tenham razão –, na época à mudança os contemporâneos foram coniventes.

Tenho pra mim que o grande vilão das datas apertadas do futebol brasileiro, é o seu returno. Sua segunda metade coincide com o afunilamento de outras competições continentais e outras nacionais. É perceptível a queda de rendimento dos jogadores no segundo turno.

Nos tempos onde o Brasileirão era disputado em turno único, classificando os oito melhores e, posteriormente se enfrentando na fase final, a competição ia de agosto a dezembro. A Copa do Brasil e a Libertadores – em julho já haviam terminado, restando ainda, espaço para uma intertemporada antes do início da disputa do nacional, e convenhamos… não me lembro de tanta reclamação a respeito de um calendário excessivo.

Chamem-me de saudosista. Mas somos sim, importadores passivos, e ainda com forte verniz de colonizados.

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