O Futebol feminino além da Copa | Por Felipe Blanco

“O futebol feminino é um espetáculo ridículo e digno de merecer atenções das nossas autoridades.” “Pé de mulher não foi feito para se meter em chuteiras.” “Futebol mata a graça da mulher.” Estas são frases que estamparam jornais de grande circulação no Brasil no início dos anos 40. O futebol feminino era então proibido por lei, segundo artigo 54 do Decreto-Lei nº 3.199, de 1941: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”.

Foto: Exposição Contra-Ataque! As mulheres do futebol

Há duas gerações éramos o país que abominava a participação feminina na modalidade. Quais eram as justificativas na época? Cabia à mulher o papel de ser fisicamente delicada, recatada e “do lar”, logo, era impossível cogitar a possibilidade de exibição dos corpos femininos, trajando shorts curtos e disputando partidas, em espaços públicos, ocupados em sua maior parte por homens. Vigorava a ideia de que o esporte comprometia a função primordial de conceber filhos, além do fato de crerem que o caráter ostensivo do futebol desequilibrava a personalidade feminina. A soberania masculina e machista prolongou a proibição até 1979. Quatro anos depois ocorreu sua regulamentação, em 1983, ou seja, há exatos 36 anos. Contudo, a proibição não era exclusividade do país da “ordem e progresso”: Inglaterra, França e Alemanha também o fizeram, revogando as decisões apenas na década de 70.

Durante esse período de censura, a prática do esporte foi combatida com prisões e fechamento das sedes de equipes femininas, como o caso do Primavera F.C. e de sua responsável, Carlota Rezende, em 1941.

Foto: Exposição Contra-Ataque! As mulheres do futebol

Ser mulher e jogar futebol era ser revolucionária. Hoje, após 78 anos da proibição, resquícios dessa mentalidade ainda são refletidos no preconceito com aquelas que optam por esse ofício, e contribui para manter o abismo nos quesitos de igualdade de condições para a prática, remuneração e desenvolvimento do esporte. Apenas em 1970 foi criada a Federação Internacional de Futebol Feminino, em 1988 foi realizada a primeira convocação oficial da seleção brasileira, e em 1991 ocorreu a primeira Copa do Mundo, apenas com mulheres, organizado pela FIFA. As brasileiras atuaram com uniformes masculinos até 2015, quando pela primeira vez puderam usufruir de uniformes modelados para elas. Mas somente em 2019 os uniformes femininos foram disponibilizados para venda ao público.

Foto: Esquerda para direita: Sissi e Cristiane

Segundo os dados apresentados na exposição “Contra Ataque, as mulheres do futebol”, em exibição no Museu do Futebol, em São Paulo, existem 3.200 atletas federadas na CBF, e 340 equipes, dentre as quais 52 atuam em campeonatos adultos, 120 atletas brasileiras atuando no exterior e 50 milhões investidos, dos clubes, em torneios femininos, neste ano. Se levarmos em consideração toda a história de luta das mulheres na modalidade, são ótimos números para celebrar.
Visando a valorização e disseminação do esporte, em 2019, a CBF e a CONMEBOL impuseram um licenciamento que obrigou os clubes da série A, a criarem equipes femininas, caso contrário, não poderiam disputar a taça Libertadores, Sul-Americana e Brasileirão. Antes da regra, apenas 7 dos 20 clubes da primeira divisão nacional tinham equipes femininas estruturadas. Mesmo com a imposição, e consequente criação de diversas equipes, a realidade das atletas ainda é precária, falta profissionalização, muitas recebem baixos salários e pouquíssimas possuem carteira assinada e/ou direito de imagem. Saiba mais sobre a condição de trabalho das atletas brasileiras nessa excelente explanação do Thiago Braga, do portal UOL:

(Blog Lei em Campo – UOL)


(Portal Globoesporte.com)

A copa do mundo de 2019 está sendo a copa do empoderamento feminino. Muitas atletas valem-se do momento de grande exposição para clamar por igualdade e melhores condições. Diversos portais e marcas trataram a copa sob este enfoque, alertando sobre os problemas na modalidade, como o preconceito, a desigualdade e a falta de incentivo social e financeiro. A palavra empoderamento vem do termo em inglês “empowerment” e trata-se de um neologismo criado pelo renomadíssimo educador e filósofo Paulo Freire. Segundo a definição do dicionário Michaelis, o termo refere-se à consciência social dos direitos individuais para que haja a compreensão coletiva necessária e ocorra a superação da dependência social e da dominação política. É um processo pelo qual as pessoas aumentam a força social, política ou econômica de indivíduos vulneráveis, a fim de promover mudanças positivas nas situações em que vivem. Implica um processo de redução da vulnerabilidade e do aumento das próprias capacidades dos setores marginalizados da sociedade. Tem por objetivo promover entre eles um índice de desenvolvimento humano sustentável e a possibilidade de realização plena dos seus direitos individuais.

(Portal Nexo)

Confira como o empoderamento feminino tomou conta das campanhas publicitárias dos patrocinadores do Brasil, como o Guaraná Antártica, Itaú, Boticário, Brahma e Nike:

Segundo a pesquisa realizada pelo Kantar IBOPE Media, divulgada neste mês, vemos que na última edição da Copa do Mundo Feminina, em 2015, o tempo médio de consumo das transmissões dos jogos entre a população geral aumentou em 51%. Tratando apenas do público feminino, a variação foi de 30%.
Em 2019, o futebol feminino segue em expansão e crescendo em visibilidade:

(Portal El País)

(Portal O GLOBO)

(Portal Máquina do esporte)

(Portal Máquina do esporte)

“Isso não é mais só sobre o futebol feminino. Isso é sobre nós, mulheres, deixarmos uma pegada. Nós contamos com o apoio de vocês para mudar a mentalidade, para que no futuro o futebol feminino seja simplesmente conhecido como futebol”, declarou Fatma Samoura, Secretária Geral da Fifa. O futebol feminino chegou para ficar. As mulheres estão acompanhando e praticando mais o esporte, como mostram os dados do Ibope e os números do Museu. A tendência é que o mercado cresça e abra cada vez mais espaço para atletas e profissionais que atuam em todas as áreas que circundam o esporte, ironicamente, nascido na terra da rainha. É evidente que progresso será benéfico para todos. A sociedade deve compreender que não existem motivos para distinção, todos são livres para praticar o esporte que quiserem, não há mais espaço para rótulos e imposições de conduta que contrariem os direitos individuais.

Para os que estão no meio do caminho entre o apoio e o desdém, vale lembrar que o futebol feminino não acontece somente em copas, olimpíadas e pan-americanos. Elas atuam o ano inteiro em campeonatos estaduais e nacionais, diante de estádios vazios, mesmo com entrada gratuita. Acompanhe o futebol feminino, informe-se, colabore com a modalidade, patrocine uma equipe. O futuro do esporte depende de todos nós, homens e mulheres, assim como a igualdade e o fim do preconceito. Muita gente já ralou para conquistar a possibilidade de disputa e o mínimo de condições, agora é preciso continuar em frente, não viveremos de Marta, Formiga, Cristiane e outras craques que vestiram o verde e amarelo para sempre, é preciso renovação, novas jogadoras, novos profissionais em todos os cargos e principalmente apoiadores. Fala aí, Marta, a verdadeira rainha do futebol:

Gestor de marketing e comunicação no clube Ferroviária S/A de São Paulo.
Administrador público graduado pela UNESP. Especializado em gestão e marketing esportivo, colunista do portal Brand Bola e fã incondicional de esportes, criação e natureza.

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