O que o caso Sidão nos ensina? | Por Felipe Blanco

A interatividade na televisão brasileira é bem mais antiga do que muitos imaginam. Para ser mais exato, podemos dizer que começou, em moldes parecidos com os que vemos hoje, no ano de 1992, com o programa da TV Globo “Você Decide”, no qual o ator Tony Ramos apresentava histórias cujos finais poderiam ser decididos ao vivo, através do voto dos telespectadores em ligações via 0800 em telefones fixos. Os votos eram computados em tempo real e somente o final mais votado era exibido no programa.

A tecnologia evoluiu, os telefones fixos beiram a extinção e a internet, aliada aos smartphones, comanda a comunicação mundial. A interatividade em tempo real ganha cada vez mais espaço e se tornou tão banal que jornalistas criam enquetes no Twitter para decidir qual a gravata deverão vestir na próxima aparição, por exemplo. Tornar o público consumidor parte do espetáculo é criar um vínculo interessantíssimo para ambos, emissor e receptor. Atualmente, citando especificamente os programas voltados ao futebol, o fã pode ter sua opinião lida em uma roda de debate ao vivo, ter sua pergunta respondida por especialistas durante uma partida, enviar um vídeo caseiro para ser exibido no intervalo de um jogo com suas impressões acerca do duelo, votar em qual atleta foi o melhor de todos os tempos e comentar em tempo real nas transmissões via streaming. Estas são algumas opções de interação a disposição de todos os que possuem internet.

As interações são altamente positivas, pois cria-se um canal de comunicação para conversar com seu público ao vivo. Os fãs nutrem expectativas de verem seus nomes no ar e sentem-se parte integrante da transmissão, como se estivessem fisicamente presentes e com direito a voz no debate. As estratégias de marketing buscam alcançar o máximo de proximidade com seu público alvo para que consumam o produto oferecido. Contudo, a construção dessa relação não se baseia somente em consumir seu produto devido à qualidade, ao preço e etc. – o marketing tem como objetivo entrelaçar produto e cliente, para prover um relacionamento de amizade, confiança e admiração. Estes elementos geram engajamento, fidelidade e, consequentemente, mais vendas e investidores interessados em ter sua marca vinculada a produtos que mantêm relações próximas com multidões apaixonadas.

Entretanto, é preciso lembrar que a interatividade não é apenas positiva:  oferecer um canal de comunicação aberto ao público é sujeitar-se a qualquer tipo de opinião, interpretação ou manifestação em tempo real. As emissoras possuem formas de filtrar interações inadequadas, mas muitas vezes elas ultrapassam os filtros e causam transtornos. Recentemente, um caso sensibilizou o futebol brasileiro ao extrapolar os limites do bom senso e da “brincadeira saudável”. O goleiro do Vasco, Sidão, contratado há pouco tempo, junto ao Goiás, foi humilhado em rede nacional após ter sido alvo de uma “trollada” homérica. Isto porque a mesma Rede Globo, que exibia o “Você Decide”, promove o momento “Craque do Jogo”, no qual os internautas votam para eleger o atleta detentor da melhor atuação na partida transmitida. Sem problemas até aí, exceto pelo fato de que milhares de pessoas tenham decidido dar o prêmio para o goleiro que havia falhado no gol do adversário e ainda carregara consigo o peso de um revés por 3 a 0. Foi nítida a intenção de tirar sarro do arqueiro cruz maltino. E como é de costume no quadro global, o repórter em campo entrega, ao vivo, a premiação do vencedor. Confira como foi:

Foi constrangedor assistir isso, não? Esta não foi a primeira vez que o quadro foi vencido pela “zoeira”. No amistoso entre Brasil e República Tcheca, o vencedor foi o jogador tcheco, Kudela, com a clara intenção de que Galvão Bueno pronunciasse o nome, que em português pode obter outro sentido. Além do amistoso, dois jogadores do Flamengo-RJ foram eleitos para o prêmio com votos irônicos. Rodinei e Marcio Araújo, rotineiramente criticados pela torcida rubro negra, venceram por brincadeira.

(Folhapress/Getty Images)

(Divulgação: www.globoesporte.globo.com)

Diferente de Marcio Araújo e Rodinei, Sidão ganhou mais destaque por seu passado. Sente culpa pela morte da mãe, foi dependente químico, sofreu depressão, pensou em se suicidar, quase largou o futebol e é hostilizado a todo tempo pelos torcedores do São Paulo FC, por não ter correspondido a expectativa atuando pelo tricolor. Por fim, foi negociado com o Vasco devido a declaração de que seu ex-clube, (Goiás) era uma forma de retrocesso na carreira.

A entrega da premiação gerou imensa repercussão. Casagrande, que comentou a partida nas cabines da emissora, puxou a fila dos constrangidos e se desculpou no seu perfil do Instagram. A própria repórter que entregou o prêmio também se retratou. Diversas personalidades e equipes apoiaram o goleiro, o Vasco publicou uma nota oficial e até a Globo assumiu o equívoco e alterou o formato de escolha do craque do jogo.

 

O goleiro, que classificou o episódio como o pior dia de sua vida, foi exposto negativamente, no exercício de sua profissão, para milhões de pessoas. Esse é um exemplo claro de complicações que a interatividade, ao vivo, pode trazer. Todavia não creio que ela seja o problema, mas sim o comportamento do torcedor brasileiro. Veja o que twittou Antonio Tabet, integrante do grupo Porta dos Fundos e ex vice-presidente de comunicação do Flamengo-RJ, sobre o ocorrido:

Os fãs de futebol, no Brasil, elevam a modalidade ao patamar máximo de importância em suas vidas, ao ponto em que ouso afirmar que as cobranças sobre boas atuações dos atletas são mais severas e constantes do que as exigências para melhores políticas acerca da educação, saúde e segurança pública. Muitos jogadores e técnicos sentiram na pele a ira de milhares e milhões por toda a vida, apenas por terem decepcionado seus fãs com quebras de expectativas durante jogos marcantes. Como o famoso caso do goleiro Barbosa, execrado por toda a vida devido a derrota da seleção brasileira, na final da copa do mundo de 1950, no episódio conhecido como Maracanazo.

Além da crucificação por acharem que não teve qualidade técnica, Barbosa foi julgado por ser negro, criando o estigma de que negros são maus goleiros, e até hoje há quem propague essa ideia. São inúmeros os casos de atletas marcados, para sempre, por erros atribuídos ou cometidos, como no caso do lateral esquerdo e penta campeão mundial, Roberto Carlos, quando foi acusado de arrumar a meia, no momento em que deveria estar marcando o atacante francês, Thierry Henry, que marcou o gol da eliminação do Brasil na copa de 2006.

Voltando para o debate sobre interatividade, mesmo através de mecanismos tecnológicos, sempre haverá pessoas envolvidas, muitas delas recheadas com seus preconceitos, ódio, angústias, expectativas frustradas, desejos e ávidas por obter, no esporte, a satisfação e alento para amenizar vidas que nem sempre são confortáveis.

A interação negativa, racista, julgadora implacável e que prolifera preconceitos, humilhações e brincadeiras de mau gosto é apenas um reflexo da nossa sociedade, de como criamos nossos cidadãos e cultivamos nossas relações sociais desde a infância. É preciso educar, nutrir as mentes com leitura, compartilhar informação, instruir e debater sobre posições e comportamentos que nunca favoreceram o bem-estar da população e a liberdade dos indivíduos. O problema não é o formato de votação do craque do jogo, é quem vota e qual a sua intenção. O lado humano dos jogadores muitas vezes é esquecido, como se fossem robôs programados para o erro zero. Ah, mas eles fazem isso todos os dias, me dá o salário dele pra você ver se eu errava aquele lance… Erraria sim, e talvez erraria ainda mais. Errando ou acertando, todo ser humano merece respeito como cidadão, e publicamente, no exercício de sua profissão, não é diferente.

Gestor de marketing e comunicação no clube Ferroviária S/A de São Paulo.
Administrador público graduado pela UNESP. Especializado em gestão e marketing esportivo, colunista do portal Brand Bola e fã incondicional de esportes, criação e natureza.

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