O FUTEBOL RESPIRA, SENTE E CHORA | POR FELIPE BLANCO

O choro do pequeno torcedor da Ferroviária, time da cidade de Araraquara, situada no interior do estado de São Paulo, após ser eliminado, nos pênaltis, no duelo diante do Corinthians comoveu muitos espectadores e fãs de futebol que acompanhavam as quartas de final do Paulistão 2019.

” – Por que chorar por futebol? Eles estão ganhando milhões e você fica aí chorando…” Quem nunca falou ou ouviu essa frase após algum resultado que frustrasse sua expectativa?
Esse episódio me inspirou a contar a minha história, algo real, concreto, sem emprestar algum causo ou perspectiva.

O ano é 1990. Nasce mais um brasileiro e paulistano na periferia. Parte da biologia da selva de concreto – menos cinza do que atualmente – em bairros onde as atividades dos adultos se dividem em botecos, igrejas e futebol. Filho de fãs incondicionais deste esporte, pai e avô, a continuidade desse amor era praticamente certa. Antes mesmo de entender quem eu era, as cores de um clube já me vestiam dos pés a cabeça. O hino e os cantos da torcida já eram entoados no meu ouvido desde o berço, possivelmente durante a gestação também. A bola e os gritos de gol a cada chute na gorduchinha eram acompanhantes fiéis no dia a dia do pequeno projeto de torcedor.

Logo chegou o grande momento, a primeira vez em um estádio (que a memória me permite
recordar). Foi uma vitória por 3 a 0, em um campeonato paulista. Pé quente. Não me recordo se o estádio estava cheio, mas não importava. Eu vi milhares de pessoas agitadas nas ruas, bandeiras enormes balançando, batuques ao mesmo tempo barulhentos e dançantes, cantos em coro, palmas sincronizadas, fogos de artifício e muitas pessoas vestidas com as mesmas cores. Senti-me parte de um todo: os torcedores me pareciam familiares, fiquei deslumbrado com toda a grandeza e esplendor do que via, tinha muitas perguntas, mas não dava tempo de fazê-las, dado o descontrole em tentando acompanhar toda a movimentação. Era a coisa mais emocionante que os olhinhos levemente rasgados, e semiabertos devido ao sol, tinham visto até então. Euforia e êxtase se misturavam com a curiosidade e pulos involuntários de alegria. O futebol estava fazendo mais uma “vítima”.

A paixão pelo esporte, ou melhor, a paixão pelo meu time e eu fomos crescendo juntos. O meu clube era sempre o melhor, tinha necessidade de sair por cima em qualquer discussão sobre esse tema. Na escola, boa parte do tempo era tomado por discussões sobre títulos, vitória em clássicos e conhecimento da história do meu time. Era viciado em vencer. Achava que o futebol se resumia a isso, vencer, ser campeão e mostrar que suas glórias são as maiores. Contudo, ao longo dos anos esse sentimento foi sendo moldado sem que eu percebesse. Fui do fanatismo extremo, ao me sentir dono do Brasil e do mundo, à aversão, quando acreditei, por certo tempo, que o futebol era apenas um instrumento de manipulação do nosso povo sofrido. Jogadores ganhando milhões e nós lutando pela sobrevivência.

Após um tempo, quis o destino que eu retomasse a relação com o futebol. Agora, mais maduro, sábio, sensato e com o sentimento equilibrado, tive a oportunidade de ingressar profissionalmente em um clube, a Ferroviária. Mesma equipe do garotinho que tomou a tela de milhões de brasileiros ao derramar lágrimas sinceras após a eliminação do clube grená. Agora, do outro lado, assisti ao episódio como alguém que precisa estudar e entender o torcedor, como fazê-lo vir ao estádio, como proporcionar um grande espetáculo fora das quatro linhas, o que ele quer, seus desejos como fã do clube, o que pode deixá-lo ainda mais próximo e de que maneira podemos fortificar essa relação e torná-la próspera para clube e fãs. Ao invés de fitar o campo e vibrar com os lances das partidas, tive de voltar os mesmos olhos rasgados para as arquibancadas, o que é dito nas redes sociais e como se comportam os torcedores.

Hoje, após viver o lado de torcedor, admirador do esporte e funcionário de um clube, consigo enxergar o futebol sob uma nova visão. Não me refiro apenas sobre técnica, mas ao que ele representa para a vida das pessoas. O que te move? O que faz o seu coração bater acelerado? O que te dá prazer, te faz chorar de alegria ou botar pra fora aquela lágrima teimosa que escorre sem mais nem menos? Alguma vez você já se sentiu tão orgulhoso que queria gritar? Sair pela rua pulando, buzinando seu carro ou se sentiu tão poderoso e perfeito apenas por vestir uma determinada roupa? Já viu algum desconhecido na rua, sorriu e sentiu vontade de abraça-lo e dizer: “somos foda!”? O esporte proporciona emoções que são raras na vida dos seres humanos, sentimentos que, de outra forma, muitos jamais experimentariam em suas vidas. Ele une, emociona, nos dá força para viver, enfrentar as batalhas do cotidiano e pode se transformar na razão de viver de muitos torcedores que buscam um alento para vidas difíceis.

Futebol não é só um jogo. Concordo com a afirmação que se tornou corriqueira. Porém, eu ampliaria a afirmação para: o esporte não é só um jogo. A relação que tenho com o meu pai e outros diversos amigos e amigas, passa pelo esporte. Se eu expuser as minhas cinco lembranças mais marcantes, certamente haverá duas ou três que incluam futebol. Não me envergonho ou sou fútil por esse motivo. O futebol é cultura, assim como a música ou a arte.

Não quero afirmar para o mundo que o futebol é o melhor dos esportes ou deva ser venerado por todos. Quero expor a minha história para dizer que não devemos menosprezar o sentimento de quem chora, sorri ou vibra por ver o seu time do coração. Existem milhões de histórias por trás das lágrimas de um garotinho que torce na arquibancada. É poder sentir-se campeão e vitorioso quando você busca forças para sobreviver ao cotidiano cruel, é poder abraçar pessoas desconhecidas e ser correspondido, é gritar, sentir-se parte importante de algo, extravasar e ser ouvido, é ter fé, é poder vestir o seu amor e gritar ao mundo como ele é grande, independente do tamanho sob a perspectiva dos outros que te julgam.

Para não dizer que não falei sobre marketing esportivo… Empresário que lê o Brand Bola, perceba que entrar no meio esportivo é investir seu dinheiro e atrelar sua marca a maior paixão e talvez o significado da vida de milhões de pessoas.

Gestor de marketing e comunicação no clube Ferroviária S/A de São Paulo.
Administrador público graduado pela UNESP. Especializado em gestão e marketing esportivo, colunista do portal Brand Bola e fã incondicional de esportes, criação e natureza.

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