Um time, um país, e agora, uma religião | Por Felipe Blanco

Primeiro fundaram um clube, o Sport Club Corinthians Paulista, depois se tornaram um país, a República Popular do Corinthians, instituíram a Democracia Corinthiana e agora tem a sua própria religião, o Corinthianismo. A história dessa equipe é tão gigante quanto particular. O clube alvi-negro tem mística, paixão, fatos marcantes, glórias, ídolos, uma torcida numerosa e absolutamente fiel, que recheia a sua história e o eleva a um patamar de grandeza invejável.

Dois dos maiores patrimônios de um clube são a sua torcida e seus ídolos. Por isso, o desafio dos times é conseguir a melhor relação possível com esse público, para o bem da sua existência e longevidade. A relação com seus torcedores, no plano ideal, deveria ser semelhante a de um familiar, a quem você dedica a sua vida sem pestanejar, cidadãos de um mesmo país, conectados por região desde o nascimento, ou fiéis, devotos declarados. O Corinthians possui uma mistura dessas três relações em sua simbiose com a torcida. E o Corinthianismo, através de um vídeo brilhante, arrepiante, polêmico e ousado, oficializa, o que Sócrates (ex-jogador e ídolo do clube), grande expoente de um dos maiores e mais famosos movimentos políticos do esporte nacional, a Democracia Corinthiana, utilizado de forma excepcional por esta e outras campanhas,  já havia afirmado: “… o Corinthians é muito mais que um clube, é uma religião…”.

Assista o vídeo:

É de arrepiar! O filme é excelente. Ele retoma o valor do que é ser corinthiano, muito além de títulos, conquistas e craques; a importância do sofrimento para a redenção com dois mundiais; a lembrança dos tempos de maloqueiros sem a “casa própria” para a obtenção de um estádio moderno, sede de grandes jogos internacionais e totalmente identificado com a fiel torcida. Com direito a santinhos do clube, terço próprio e mandamentos, a fé corinthiana se materializou. Para o filme, a agência não usou atores, e sim personagens reais, torcedores fervorosos, o que torna o vídeo ainda mais autêntico.

O mesmo gerou divergências e discussões na web, muitos questionaram o exagero nas comparações com outras religiões e argumentaram que o Corinthians quis alçar o clube ao mesmo patamar de Deus. Exposta a problemática, sob a ótica dos mais religiosos e conservadores, quero salientar a campanha como um todo, acompanhando as iniciativas. A partir de agora, o ano da fundação do clube passa a ditar a hora da Fiel: 19h10. E, todos os dias, neste horário, eles farão a celebração do Corinthianismo com conteúdos nas redes sociais, como os mandamentos lidos por um mensageiro de Deus, corinthianos famosos orando o “Corinthians Nosso” e assim por diante. Ritual, rotina e famosos… as pessoas gostam muito disso!

Completam a campanha um site mobile com uma vela, cujo torcedor pode acender para mandar sua energia positiva, um confessionário digital, no qual o Fiel pode revelar o que já fez pelo Timão em, texto, áudio ou vídeo e um livro com a doutrina e história do Corinthianismo (milagres, peregrinações e até cânticos). Além disso, ainda existem os 10 mandamentos do Corinthianismo:

1.AMAR O CORINTHIANS ACIMA DE QUALQUER RESULTADO, PARTIDA E JOGADOR.

2.NADA É MAIS IMPORTANTE DO QUE O JOGO DO CORINTHIANS.

3.AQUI É CORINTHIANS, AQUI É NA RAÇA.

4.A FIEL NÃO VAIA, A FIEL APOIA OS NOVENTA MINUTOS.

5.NOSSAS GLÓRIAS MIL SÃO CONTRA TUDO E CONTRA TODOS.

6.O BANDO GRITA MAIS FORTE QUANDO O TIMÃO ESTÁ PERDENDO.

7.SOFREDOR HOJE. SOFREDOR AMANHÃ. SOFREDOR PRA SEMPRE, GRAÇAS A DEUS.

8.ESTE TIME SÓ TEM UM DONO: ESTE TIME É DO POVO.

9.EU NUNCA VOU TE ABANDONAR PORQUE EU TE AMO.

10.VAI, CORINTHIANS!

A partir de então, deixando de lado a religião e partindo aos termos práticos e mundanos, o Corinthians, com o site e campanha conseguirá criar uma base de dados de todos os torcedores que se cadastrarem para mandar vídeos, fotos e áudios, inaugura um horário do clube, com conteúdos nas redes sociais (19h10) gerando grande visibilidade e frequência, obtém um acervo inumerável de histórias para se inspirar e utilizar como quiser, e por fim, crava numa pedra, dentro de seu estádio, os mandamentos de como o seu torcedor deve ser absolutamente fiel, apaixonado e preparado para qualquer situação adversa. Ter torcedores com esse perfil talvez seja o sonho de 11 a cada 10 gestores de clubes, e o mais surpreendente é que o clube não impôs a devoção, tentando criar esse elo com o torcedor, os mandamentos surgiram naturalmente da sua própria torcida.

Há quem critique a campanha devido a problematização da religião, porém, em termos comerciais, marketing e de identidade da marca, o Corinthians acertou em cheio.

Mito, segundo o dicionário, pode significar: “História fantástica de transmissão oral, cujos protagonistas são deuses, semideuses, seres sobrenaturais e heróis que representam simbolicamente fenômenos da natureza, fatos históricos ou aspectos da condição humana; fábula, lenda, mitologia.”

Posso encerrar dizendo que o Corinthians mitou.

CORINTHIANS NOSSO

Bando de loucos que estais na norte,

leste, sul, oeste ou em casa;

abençoado seja o nosso Corinthians.

venha a nós a vossa raça;

seja feita a nossa história

assim em Itaquera como fora;

a vitória nossa de cada dia nos dai hoje;

perdoai as nossas vozes roucas

assim como nós perdoamos que seja sempre sofrido;

e não nos deixeis gritar gol antes da hora,

mas livrai-nos da derrota.

Vai, Corinthians!

Saiba mais sobre os movimentos e campanhas do clube:

Democracia Corinthiana

República Popular do Corinthians

 

Gestor de marketing e comunicação no clube Ferroviária S/A de São Paulo.
Administrador público graduado pela UNESP. Especializado em gestão e marketing esportivo, colunista do portal Brand Bola e fã incondicional de esportes, criação e natureza.

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